Sabes, só hoje entendi que muitas vezes fui estúpida, que muitas vezes fui fraca por me deixar levar pelas cabeças e corações alheios. É fácil para quem está fora pensar com a cabeça e dar conselhos que parecem os mais correctos. De dentro não o é tanto. Oh, de dentro, meu amor, os contornos delineados da moralidade esbatem-se fugazmente, desalinham-se, mostrando apenas o cru, o sentimento, a dor, a mágoa, a ilusão, a esperança, a realidade de nunca jamais te ver outra vez. Pergunto-me hoje se fiz bem, se não tivesses falecido, arrepender-me-ia de alguma coisa? Provavelmente não, porque pensaria que tinha ainda todo o tempo do mundo. Pensaria, também, que a atitude foi sempre a correcta, e a covardia obrigar-me-ia a acreditar na raiva esmorecida que me incitava a tratar-te com desdém. Seria uma maneira de provar-te que era algo sem ti? Perdoa-me a imaturidade, perdoa-me não ter tido coragem para enfrentar os teus sentimentos. Perdoa-me por ter desligado o meu coração para que nunca mais te visse ou te tocasse, para que eu fosse desta vez a forte. Eu não sou assim, resta-me ter a certeza que sabes que eu não sou assim. Agora já não tenho a oportunidade de to provar, não tenho a opção de ligar e ouvir 'então miúda'... Acredita que já tentei, já me sentei na cama e liguei, esperei, esperei e ouvi a tua voz na caixa de correio. Agora é uma repetição constante, apenas, uma repetição. Sabes, como sempre, sou julgada e criticada, porque supostamente me magoaste e devia odiar-te, mas sinceramente, não me interessa, porque, sem seres sangue do meu sangue, não tenho sentimento mais puro no coração do que este que senti por ti. Estejas onde estiveres não me vejas nestes momentos em que incendeio todo o meu ser numa procura incessante de destruir esta dor de teres desaparecido. 'Tens um sorriso mesmo parvo' assim sim me podes ver.
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