Hoje senti muito a tua falta. Deixei de sentir aquele medo de te encontrar, de me cruzar contigo num corredor, numa rua e sentir o corpo estremecer. Agora está flácido, controlado, dorido. Tem espasmos de dor, mas esses não são só culpa tua. Duvido que saibas o quanto me ensinaste a crescer, o quanto me ajudaste a reconstruir depois das peças terem caído tantas vezes, e até quando eras tu quem chegava com um sorriso malicioso e decidias que eu devia recomeçar, que a estrutura estava amorfa, que não seria esta aquela que verdadeiramente me aguentasse. Sabes quantas vezes me tombaram as peças desde que me deixaste? Irias ficar surpreendido meu anjo. Irias dizer-me 'eu avisei-te, mas tu és teimosa'. Noutros casos irias dizer 'miúda, tem calma, tudo se resolve, vais ver, confia em mim' Sei-te as palavras da boca. Ouço-te dizê-las dentro da minha cabeça, ecoando como gritos confinados a paredes vazias, rasgando-me por dentro, fazendo surgir na minha garganta um nó impossível de desapertar, explodindo em cada célula do meu organismo. Gostava de conseguir remediar todos os meus erros, gostava de perceber porquê algumas pessoas erram. Gostava que voltasses e que eu tivesse oportunidade de ser um criança desprotegida nos teus braços. Penso na maneira como chegaste a conhecer o meu contorno, como sabias embalar o coração, mas também parti-lo, e estremeço de recordar a maneira como, da última vez, ainda tinhas impregnada a essência de me ter, de me aquecer o coração com respeito depois do gelo. O meu corpo treme e o meu coração desaba, porque 'baby, eu tenho esse efeito em ti'.
As pessoas se vão, mas os efeitos e lembranças que elas produziram em nós parece que são eternos. E alguns até são. Belíssimo texto, coração. beijo.
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