
Caminho como todos os dias, com o mesmo caminhar pesado, curto e rápido que me é característico. Percorro avenidas, ruas e corredores que já me acostumbrei a percorrer e que já me são, quase, intrínsecas. Os meus pés memorizaram o roteiro que me é (auto)permitido, identificando e associando cada lugar perdido e tão identificável. Os meus olhos mostram-me imagens onde me vejo reflectida.
Mas, desta vez, enquanto caminho como se nada fosse diferente, as pessoas olham para mim, o que não é habitual, e ficam espantadas, murmurando entre elas palavras que não consigo perceber.
-O que se passa? - pergunto-me a mim própria. Não consigo perceber a diferença de hoje com os restantes dias, a não ser um pequeno peso nas minhas costas, que atribuo ao cansaço de sabe Deus o quê.
Continuo a caminhar mas os olhares irritam-me realmente muito. Finalmente passo por uma avenida cheia de lojas e vejo, numa montra, o meu reflexo e o do enorme saco que se encontra pendurado em mim. Bem me parecia.
Carrego comigo o pesado fardo das memórias.
tens de te libertar dele, tens de o deixar para trás...
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