quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Empty


Sou um vazio.

Não, não é daqueles vazios brancos, bonitos e puros que ao olhar apetece chegar ao pé deles e enche-los de cores; roxos, vermelhos, amarelos, azuis...
É daqueles vazios brancos que parecem ter perdido esplendor com o passar dos anos, um branco sujo sem nada que se lhe possa adicionar, pois perdeu qualquer rasto de vida. Um quadro dos que passamos pelo lado sem notar a presença porque algum mais atraente está ao fim do corredor a gritar pela nossa atenção.

Sempre fui o quadro ao lado, aquele em que as pessoas costumavam reparar só se tivessem muita paciência. Porém, fui sempre, também, o pintor que decidiu que aquele vazio seria a sua obra-prima. Cada dia adicionava uma cor, uma textura, um sentimento; cada dia visionava uma nova dimensão e transparecia uma nova história. O quadro relatava uma vida.
Um dia o pintor decidiu que já não tinha cores para adicionar, roubaram-lhe os pincéis e os olhos, e desistiu do quadro, e deixou-o murchar, ao sol, ao vento e à chuva da solidão dos abandonados.

Pode ser que um dia volte. Por enquanto o quadro é um vazio, esbranquiçado e solitário, à direita, naquele corredor com o quadro de cores bonitas ao fundo.

5 comentários: