terça-feira, 23 de novembro de 2010

Jogo viciado


Colocaste, delicadamente, todas as peças no tabuleiro. Não olhaste para mim, sequer, mas disseste-me: Eis aqui as peças, faz o que tens a fazer. E eu fiz. Movimentei as peças e ganhei o jogo, sem resistências, sem obstáculos, sem reticências, eu determinei o fim da jogada. 
A seguir, peguei numa espada e quis lutar, confrontar forças e não juízos. Pegaste na tua, levantaste-a e, imediatamente, sem olhar para mim, deixaste-a cair no chão, e disseste-me: Eis aqui a tua espada, faz o que tens a fazer. E eu fiz. Esganei-me sozinha, enterrei-a provocando uma fuga carmesim pungente. 
Após o meu silencioso sofrimento, quebraste o silêncio e perguntaste-me o motivo da minha insistência. Aí, quis medir palavras, enfrentar-te com astúcia e não com violência, travei um monólogo insistente, com uma pergunta retórica final. Sem olhar para mim, sereno e frio, disseste-me: Eis aqui a minha resposta, faz o que tens a fazer. E eu fiz. Limpei, com ternura e pressa, o sangue espalhado pelo chão, e anunciei-te a minha partida. Toquei por última vez a tua face, inspirei profundamente o teu aroma, sem saber realmente o motivo. Obriguei os membros a dobrar a esquina sem volver a vista atrás, e quando era impossível, já, tu conseguires ver-me, sucumbi - no mais amplo e imaginável sentido da palavra- deixando o rasto mais puro onde quer que passava, sabendo que cada passo me afastaria, eternamente, de ti. 
Fiz o que tinha a fazer. 
Mas não por isso deixa de doer. Apenas se mitiga. 

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