Sabes, hoje te senti pegar no meu coração e apertá-lo até ele se esvair completamente. Todos estes dias, quando o medo me açoita, quando sei que estou abandonada no sentido mais completo e literal da expressão, apareces-me de repente no pensamento. Nem sempre pelos melhores motivos, às vezes ouço um vestígio da tua voz avisando-me, reprovando-me e dizendo: ‘eu bem te disse’. És mais meu confidente agora do que eras em vida, embora sempre tivesses um cariz de íntimo que me era demasiado como para negar, e eu fosse demasiado obstinada para abraçar. Uma sucessão de eventos desafortunados, meu amor, eis aqui a vida, puta e perra como Deus, ou quem quer que a tenha feito, a fez. Não a quero mais, confesso-te que não a quero mais, e, melhor ainda, ela também não me quer a mim. Estamos fartas uma da outra, eu de lutar contra ela e ela de conspirar contra mim. Esforça-se por ter de me aguentar, ela que é tão sorna e tão maquiavélica, tão filha da mãe e tão irreverentemente desgraçada. Às vezes gostava de preencher com betão esta falha colossal que se formou no meio do meu peito, porém ela tenciona crescer e abrir-se cada vez uma diminuta quantidade, de modo a que a dor não seja tão fugaz nem a recuperação tão rápida. Claro que não, ela é perita em destruições, daquelas sádicas e mórbidas, impulsionadas pela vendetta agridoce e suave, envenenamentos crónicos e pacientes da alma. Assim, sem mais nem menos, corrói-te o ser por dentro sem te aperceberes e desactiva os funcionamentos mais básicos. O oxigénio já não basta, o sangue se espessa e tudo falha, meu amor, tudo desaba e falha. Tu já não estás aqui, eu já não estou aí e sinceramente também não estou aqui, oh, e tantos estiveram em risco de nunca mais estar.
Fomos tão estúpidos meu anjo, somos sempre tão estúpidos!
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