quarta-feira, 19 de maio de 2010

Deambulações.

                  
  Já não se fazem esforços. 
Já ninguém luta com unhas e dentes. Já ninguém quer trabalhar para atingir objectivos. Caminha, olha, mas com olhos limpos, e apercebe-te que o mundo anda sem rumo. Estratigrafias de popularidade são os únicos princípios válidos. Motores de aceitação social são as únicas preocupações. 
E a juventude, nós, que, nas mãos, temos o mundo, esmagámo-lo sem misericórdia, sem pudor. Como se fosse um farrapo, pegamos-lhe fogo, sem sentir a pele a arder, sem sentir a chama a queimar cada camada de células do corpo. 
E tu, e eu, somos, meu querido, produto triste duma reacção química incompleta com mania de grandezas. Seremos todos manientos?
Lufadas de ar fresco que o Verão já me dispersa. E não, não sinto vontade de querer ser mais do que sou, e sim, revolta-me o desperdiço de vida.
Não sou de zangas, nem de mágoas acumuladas. Sou tristezas recorrentes, na mesma medida das felicidades sorridentes. Mas hoje, hoje especialmente, sinto o mundo a desmoronar à minha frente. A culpa? A culpa é minha, sem dúvida, e ninguém me tira isso da cabeça. É minha e tua, meu coração, porque nós temos a mania de nos fazermos prendas de Natal, em qualquer altura do ano, e oferecemos em medidas desproporcionais às que recebemos. Oh, meu bem, aprenderemos algum dia? Havemos de chorar cada vez que erramos? Se fosse só racio, como tu, ilusão, teria mais hipóteses de sobreviver sem falhas nem vestígios de cisalhamento.
Sim, eu tenho os joelhos sempre esfolados e as pernas com enormes hematomas.

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